NES - Núcleo de Estudos do Sertão

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA - DEPARTAMENTO DE LETRAS E ARTES

Apresentação

O presente Núcleo nasce da preocupação de discutir o espaço sertão, que não se vê, portanto, como já dado, mas em construção. A proposta do NES focaliza a relação entre linguagens e identidades e aponta para o compromisso de se discutir como se dá o que é chamado de sertão, nas diversas instâncias de sua existência, analisando os elementos da cultura sob a ótica de realidade multifacetada, multicultural, ou seja, no diálogo com outras culturas. A intenção não é a de reforçar, em meio à diversidade de culturas, a vida sertaneja isolada/identificada, homogênea, mas sim, explorar a diversidade de valores, concepções e estilos em sua fluidez, buscando pontos para o diálogo com as representações que possam ser feitas de sertão e do que seria o não-sertão. E mais ainda, explorar as imagens de sertão que ora tendem à unificação de elementos, ao “resgate” de uma identidade dissipada, ora tendem ao descentramento de traços de uma cultura que se exprime pela miscigenação, pelas feiras livres, pelo carnaval, espaços nos quais o sertão não parece ser ele mesmo, ou melhor, parece ser exatamente ele. Essa é a complexidade que se intenciona discutir, ao se propor o Núcleo de Estudos do Sertão a partir da relação entre linguagens e identidades/subjetividades.

 

Caracterização

O NES caracteriza-se por sua natureza inter e transdisciplinar, bem como pelo seu caráter questionador de seu próprio objeto de estudo – o sertão. Toma como foco de discussão questões que se destacam pela sua transversalidade: linguagens e identidades. Esse núcleo congrega, a princípio, pesquisadores da UEFS e da UNEB, estando aberto a estudiosos de qualquer instituição e de qualquer área.

Coordenação

Atualmente, dividem a Coordenação do NES os seguintes professores da UEFS:

Prof. Dr. Rubens Edson Alves Pereira
Prof. Dr. Cláudio Cledson Novaes
Prof. Ms. Juraci Dórea Falcão

Situando a proposta

Criada em 1976, a Universidade Estadual de Feira de Santana, a exemplo das demais Estaduais da Bahia, surgiu com uma grande tensão: por um lado, abrigava a demanda dos setores governamentais e das elites locais, para ser transformada em um centro complementar de formação dos filhos das referidas elites e, por outro lado, uma parte dos professores que procurava construir nas universidades pontos que tornassem possível um fazer universitário comprometido com as múltiplas demandas locais e regionais. Assim, a UEFS e as demais universidades da Bahia cresceram dentro dessa disputa ou conflito de interesses. Nas décadas de 1970 e 1980, a prática universitária cristalizou-se, sobretudo, em torno da formação de professores licenciados.

Ao longo desse período, predominou, no pensamento social da Bahia, um certo monopólio de grupos de memorialistas sobre o passado histórico do Estado. Ao que parece, a Universidade não se sentia aparelhada para deslindar o intrincado emaranhando da História da Bahia e deixava nas mãos dos monopolizadores da memória a elaboração de trabalhos que tivessem os municípios do interior como tema.

Segundo Marc Ferro (1989), é preciso que surjam novos focos elaboradores de história para que o discurso seja revisitado. No caso da Universidade baiana, o aparecimento de novas demandas começa a partir dos anos de 1990, com o crescimento da luta da sociedade baiana por pesquisas que tematizassem o universo do conjunto do Estado. Começam a surgir trabalhos que procuravam dar conta de uma problematização da realidade local. Os primeiros trabalhos, na área de humanas, resultavam de uma certa disputa da academia com o discurso dos memorialistas.

Os autores deste projeto, que possuem diferentes formações e vinculações institucionais, são em grande medida produtos da contradição descrita acima. A totalidade dos professores envolvidos fez o seu mestrado durante a década de noventa e procuraram, nos seus trabalhos, debelar uma das mais sensíveis lacunas do pensamento baiano: a interiorização do Estado enquanto preocupação temática. Na contemporaneidade, isso passaria a gerar um novo conflito: descrever/tematizar a sociedade local poderia levar a uma visão limitada do próprio espaço. Seria necessário um salto no sentido de fazer dialogar o próprio umbigo com o de outros mundos, atingir uma perspectiva translocal de ver e de investigar a própria cultura.

Dessa forma, o NES tem como propósito, partindo ou não de temáticas locais, dar o salto para discutir os conflitos a partir dos quais a natureza humana sertaneja se (re)define.